1930 a 1947

(VER FOTOS ABAIXO DESTE PERÍODO INICIAL)

 

A denominação do município de Ibiporã, no Norte do Paraná,  tem sua origem na língua tupi e significa "Terra Bonita": IBI = terra + PORÃ = bonita. Na língua guarani, o mesmo nome significa "habitante da terra". A denominação foi extraída do ribeirão de mesmo nome (Ibiporã), que passa nas proximidades da sede do município, com nascente em Londrina, e que deságua no Ribeirão Jacutinga, um dos afluentes do Rio Tibagi, no vale no qual está localizada a cidade de Ibiporã.

Os primeiros habitantes que se fixaram em definitivo no atual território de Ibiporã instalaram-se no início da década de 1930, ocupando algumas áreas rurais isoladas. A região era praticamente desabitada, existindo apenas vestígios de ocupação anterior por índios nômades e esparsas roças de caboclos.

Vestígios dessa atividade indígena foram encontrados há algumas décadas em um terreno em propriedade localizada às margens do Tibagi. São urnas funerárias e cacos de peças de cerâmica, recolhidas ao acervo de objetos do Museu Histórico e de Artes de Ibiporã (MHAI). As pesquisas referentes a essa ocupação e a antigas reduções jesuíticas no Paraná estão sendo desenvolvidas nas universidades de Maringá (UEM), Londrina (UEL) e na UFPR (Curitiba).

Além dessa presença indígena, convém ressaltar que antes da chegada dos colonos no início da década de 1930, a zona abrangida pelo atual município de Ibiporã foi visitada e conhecida (conforme consta nos primeiros registros escritos de ocupação do município) por povoadores e colonizadores brancos, a partir da segunda metade do século XIX.

Essa ocupação teve origem a partir da abertura de uma picada que João da Silva Machado, o Barão de Antonina, mandou abrir, a fim de facilitar os transportes para o Mato Grosso através dos Rios Tibagi, Paranapanema, Ivinhema e Brilhante. A picada foi aberta pelos fundos do Campo da Lagoa, indo ter à margem direita do Rio Tibagi, no lugar denominado Jataí. Por influência do Barão de Antonina, foi fundada em 1851, nessa região, a Colônia Militar de Jataí, cuja direção ficou a cargo do sertanista Francisco Lopes. Outras colônias foram fundadas na região, a partir dessa data. Dessa forma, a área compreendida pelo atual município de Ibiporã, forçosamente teria sido visitada pelos primeiros colonizadores do Jataí.

Na área abrangida pela Colônia Militar de Jataí foi instalado também o Aldeamento de São Pedro de Alcântara, em 1855, que perdurou até 1895. Foi o local onde trabalhou o frei capuchinho italiano Thimóteo de Castelnuovo (1817-1895), com o propósito inicial de catequizar indígenas, conforme afirma Maria Lúcia Striquer Bisotto (2008, p. 16), no Compêndio Histórico de Ibiporã, Vol. 1. Localizado na margem esquerda do Tibagi, atual território de Ibiporã, o aldeamento reunia indígenas de três tribos: kaingangues (ou coroados, como eram chamados pelos paulistas, devido ao corte de cabelo em forma de coroa), caiguás (ou kaiwás) e guaranis, além de brancos e negros. (KASTER, 2017, p. 64).

Feitas essas ressalvas sobre as ocupações anteriores no território de Ibiporã, a partir de 1933 começaram a chegar os primeiros moradores para ocupar áreas rurais em caráter definitivo. Dada a exuberância das terras e das riquezas naturais a localidade não tardou a se desenvolver.

Dentre os primeiros habitantes de Ibiporã, destaca-se o Sr. Joaquim Figueira, funcionário da Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP) que muito contribuiu para a construção do primitivo e único caminho que ligava o povoado ao Jataí, caminho esse que a CTNP transformou na estrada Jataí-Londrina, a fim de haver maiores e mais eficientes meios de comunicação entre Londrina e os demais núcleos populacionais do Norte do Paraná.

Em 1935, o Estado concedia em definitivo ao engenheiro Francisco Gutierrez Beltrão uma faixa de terras que ficava entre o Rio Tibagi e a área pertencente à CTNP, com sede em Londrina. Essa porção de terras era conhecida como "Terreno Jacutinga". Pelo contrato firmado dois anos antes (em 1933) com o Governo do Estado, o engenheiro Beltrão, por meio de sua empresa - Escritório Técnico Eng. Beltrão - se comprometia a transformar esta área de terras em pequenas propriedades agrícolas. Foi feito então o retalhamento em pequenos lotes e vendidos aos colonos que se deslocavam das zonas cafeeiras do estado de São Paulo.

A fim de facilitar a vida destes pequenos proprietários, foi preciso estruturar um núcleo urbano. Este serviria de local de abastecimento e ao mesmo tempo escoadouro para os produtos agrícolas. A fim de providenciar a venda dos lotes rurais, estruturar o núcleo urbano e desenhar o traçado da cidade, veio para a região o engenheiro Alexandre Gutierrez Beltrão, que viria a se tornar o fundador de Ibiporã (KASTER, 2017, p. 64). Alexandre era irmão de Francisco Gutierrez Beltrão, em nome do qual foi dada a concessão, mas que não esteve de fato nos trabalhos de colonização. Francisco visitou a cidade somente uma vez, em 1936, e morreu em 1939, em Ponta Grossa (KASTER, 2017, p. 71).

Cooperando na obra de desbravamento e colonização do Norte do Paraná, a Companhia Ferroviária São Paulo-Paraná (CFSPP), estendeu suas linhas da cidade de Cambará até as localidades recém fundadas. Em vista desta iniciativa, as "pontas de trilhos" atingiram o atual território de Ibiporã em 1934, quando ainda estava em construção a ponte ferroviária sobre o Rio Tibagi, que só seria concluída e inaugurada em 28 de julho de 1935. Um ano depois, em 15 de julho de 1936, se deu a inauguração da estação ferroviária de Ibiporã, retardada pela necessidade de ser inaugurada primeiramente a de Londrina (em 1935), patrimônio que crescia vertiginosamente e que já era município emancipado desde 1934.

A partir de 1936 o desenvolvimento de Ibiporã foi rápido e constante. Em todas as fases da vida social, econômica e administrativa da povoação, o engenheiro Alexandre Gutierrez Beltrão colaborou eficientemente. Junto com o trem, chegou a população que iria formar Ibiporã.

Foram construídas as primeiras casas da área urbana, "nos primeiros 15 quarteirões centrais, próximos à estação ferroviária" (BISOTTO, 2008, p. 19), conforme o projeto traçado pelo engenheiro Alexandre Gutierrez Beltrão. Assim, a cidade cresceu e se desenvolveu obediente ao projeto da colonizadora, a Sociedade Técnica e Colonizadora Engenheiro Beltrão Ltda.

É importante mencionar que a Colonizadora Beltrão foi responsável por todo o planejamento e execução definitiva da cidade de Ibiporã, que passou então a receber imigrantes de origem italiana, russa, japonesa, espanhola, portuguesa, búlgara, árabe, além de migrantes, provenientes em sua maioria dos estados de São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo.

O grande crescimento da região deveu-se ao excelente solo, à exuberância das matas e palmitais, às boas oportunidades de aquisição de propriedades, à construção da estrada de ferro pela Companhia Ferroviária São Paulo-Paraná, que estendeu suas linhas de Cambará às localidades recém fundadas para ser usada como meio de transporte pelos colonos e também escoamento da safra agrícola.

Em 20 de julho de 1936, o engenheiro Alexandre Gutierrez Beltrão fundava, nas terras concedidas pelo Governo do Estado, a cidade de Ibiporã. Entre 1929 e 1934 Ibiporã pertenceu ao município de Jataizinho. A partir de 6 de junho de 1934 passou a pertencer ao município de Sertanópolis. Ibiporã pertenceu ainda por um curto período a Londrina, no ano de 1938, e em 1º de janeiro de 1939, com a nova divisão territorial do Estado, tornou-se distrito de Sertanópolis. Surgia assim a "Vila Ibiporã" (KASTER, 2017, p. 70).

PRIMEIRAS IGREJAS E ESTABELECIMENTOS

Quanto ao aspecto religioso, no dia 2 de fevereiro de 1938 foi instalado o Cruzeiro, símbolo da fé e religiosidade do povo católico. Nessa mesma data, foi realizada a primeira missa campal pelo padre palotino Carlos Probst, vindo de Londrina. Também em 1938 foram construídas duas igrejas na área rural: a Capela São Pedro, na Água das Abóboras, em 29/06/1938; e o Templo Batista da Colônia Concórdia, na Água da Concórdia (próximo à Boa Esperança), que reunia imigrantes búlgaros oriundos da região da Bessarábia, que pertencia à Rússia na década de 1920, e por isso os cultos na colônia eram celebrados em russo.

No de 1939, foram fundadas as duas primeiras igrejas protestantes na cidade de Ibiporã: a Primeira Igreja Batista (que foi também a Primeira Batista do Norte do Paraná), em 13/05/1939; e a Assembleia de Deus, fundada em 15/08/1939.

Os primeiros comerciantes a se estabelecerem em Ibiporã foram: João Derevenko, André Sert, José Silva Sá, Severino José de Souza e José Scaliza. Em 1938 foi instalada a primeira farmácia, dirigida pelo Sr. José dos Santos e a chegada do primeiro médico Dr. Hélio Bonetto. A primeira escola que funcionou na localidade era dirigida pela Sra. Bárbara Machado de Oliveira em 1936. A paróquia de Ibiporã foi fundada em 8 de dezembro de 1943 e se chamava Imaculada Conceição, tendo como seu primeiro vigário o padre Vitoriano Valente Monteiro. A primeira criança a ser registrada no Cartório de Ibiporã, foi a Senhora Ermínia Filtrin, conforme constatado nos livros de registro do Cartório.

INSTALAÇÃO DO MUNICÍPIO E COMARCA

Em 11 de outubro de 1947, por meio da lei nº. 02/47 sancionada pelo Governador Moisés Lupion, foi criado o município de Ibiporã, desmembrado do município de Sertanópolis, mantendo os limites anteriores. No dia 8 de novembro de 1947, procedeu-se a instalação do município, empossando-se ao mesmo o primeiro prefeito, o Sr. José Pires de Godoy. A primeira eleição foi realizada também em 1947, sendo escolhido por sufrágio popular o Sr. Alberto Spiaci. Sua gestão foi de 1947 a 1951, formando uma Câmara Municipal. Este iniciou também o posto de saúde, o grupo escolar, o serviço de água, a coletoria estadual e o matadouro municipal.

Precisamente a 9 de julho de 1954 foi instalada a Comarca de Ibiporã, tendo como primeiro Juiz de direito o Dr. José Arruda Santos e como promotor da justiça o Dr. Antônio da Silveira Santos, desmembrando-se assim, definitivamente, da Comarca de Sertanópolis, tornando-se uma cidade juridicamente independente.

(revisado em 04/09/2017 por Jaime dos Santos Kaster - pesquisador da UEL e jornalista do Museu Histórico de Ibiporã, servidor da Secretaria Municipal de Cultua e Turismo - PMI)

Fontes: 

BISOTTO, Maria Lúcia Striquer. Compêndio Histórico de Ibiporã, Ibiporã: Fundação Cultural de Ibiporã, 2008, v.1.

KASTER, Jaime dos Santos. A fotografia na recuperação da história e preservação da memória: a ferrovia e a estação ferroviária de Ibiporã (PR). 2017. 208p. Dissertação (Mestrado em Comunicação) - Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2017.

MUSEU HISTÓRICO E DE ARTES DE IBIPORÃ (MHAI). Acervo documental. Ibiporã, 2016.

 

Imagens

  1. 1 - Derrubada de árvores - 1936

    1 - Derrubada de árvores - 1936

  2. 2 - Inauguração da Estação Ferroviária - 1936

    2 - Inauguração da Estação Ferroviária - 1936

  3. 3 - Alexandre Beltrão e Francisco Beltrão 1936

    3 - Alexandre Beltrão e Francisco Beltrão 1936

  4. 4 - Serraria às margens do Jacutinga - 1937

    4 - Serraria às margens do Jacutinga - 1937

  5. 5 - Arlindo Gonzaga entre pioneiros

    5 - Arlindo Gonzaga entre pioneiros

  6. 6 - Pioneiro Arlindo Evaristo Gonzaga entre outros

    6 - Pioneiro Arlindo Evaristo Gonzaga entre outros

  7. 7 - Arlindo Gonzaga e agrimensores - Colonizadora

    7 - Arlindo Gonzaga e agrimensores - Colonizadora

  8. 8 - Serraria Lugó & Cia - 1936 a 1938

    8 - Serraria Lugó & Cia - 1936 a 1938

  9. 9 - Picada da mata no Poço Bonito - Euzilli Cavali

    9 - Picada da mata no Poço Bonito - Euzilli Cavali

  10. 10 - Pioneiros em Ibiporã - década de 1940

    10 - Pioneiros em Ibiporã - década de 1940

  11. 11 - José Lopez e seu filho Pedro Ibiporã, 1942 -

    11 - José Lopez e seu filho Pedro Ibiporã, 1942 -